Ler é um prazer...

 

Era uma vez

 

A Ana lê muito devagar,

só uma letra de cada vez.

Enquanto ela está só a letrar

a Sara letra duas ou três.

 

A Ana tem tempo de lá chegar.

Os pés, os tês, os bês, os mês,

não fogem se ela se demorar.

A Sara quer acabar e começar outra vez.

 

A Ana lê e põe-se a pensar

nos quês, nos porquês, nos para quês,

e volta atrás para confirmar

porque, afinal de contas, talvez.

 

A Sara prefere entrar

nas palavras, nos desenhos, e ficar.

Existir no meio das histórias, em vez

de ver, viver; em vez

 

de pensar, de pausar, de perspicar,

ser ela a ser o que o herói fez.

Sai dos livros sem sair do lugar,

e corre o mundo de lés a lés.

 

A Sara lê assim, a Ana mais devagar,

e depois ficam as duas a conversar.

A Ana conta: «Era uma vez…»

E a Sara: «Era eu uma vez…»

 

O pássaro da cabeça,Ed. A Regra do Jogo